Sobre reconstruir...


Desde pequena que sou apaixonada por arquitetura, admirar construções e materiais. Quem me conhece um pouco mais sabe da minha "queda" por escadas, principalmente aquelas pomposas e que desafiam a física, fogem do tradicional e se sustentam por fios. Nos meus dias felizes na UFRJ eu costumava observar a escada da biblioteca do Centro de Tecnologia ~ me foge o bloco agora ~ ela é um espiral no centro do salão, feita de cimento queimado, exuberante e bruta ao mesmo tempo. Alguns prédios no centro da cidade também me chamam atenção, construções históricas como o centro de Paraty e o entrelaçado de ferro nos portos. Com isso desenvolvi uma habilidade a mais para reformas. Cresci numa casa que vivia em obra e com uma mãe que sempre pensava em como mudar alguma coisa. Então reformar sempre esteve no meu cotidiano. Dizem que mulher por si só já gosta de uma reforma; reformamos sapatos, bolsas, roupas, casas e pessoas.

No entanto, comecei a perceber que algumas coisas não são passíveis de reforma. Porque é necessário que haja uma estrutura firme para que o antigo seja transformado em novo, não adianta cobrir uma parede de porcelanato se a coluna estiver prejudicada. Ou colocar uma senhora porta de entrada, se não houver viga. Seja pela deterioração do tempo, seja pela estrutura anterior, seja pelo novo projeto, algumas coisas não podem ser receber ajustes. É necessário que seja totalmente destruído para que haja algo novo. A verdade é que é muito mais difícil reformar do que construir do zero. Numa reforma você nunca sabe o que vai encontrar pela frente e não sabe o grau dos problemas que vão surgir. Sim, sempre há mais do que se pode ver.

Então, como decidir quando reformar? Bem, se a reforma for na sua casa, chame um profissional qualificado! Mas quando a reforma é na vida, a coisa complica muito mais. Temos muita dificuldade de entender que, as vezes, é necessário deixar morrer. Aprendemos lá na escola, a muito tempo atrás, que tudo é um ciclo, como começo, meio e fim. O problema é que não estamos preparados para esse fim. Vamos reformando e retocando as coisas sem nos preocuparmos muito com a estrutura, até que tudo vem a baixo. Relações, sentimentos, projetos, nós mesmos, tudo, precisa estar bem edificado para segurar as porradas da vida. Caso contrário, qualquer vento mais forte te derruba.

Precisamos ser avaliadores de nós mesmos, conferindo os alicerces, a fundação, a fiação, o telhado, observar infiltrações e as reincidências de problemas. Buscar as causas e ser franco na hora de desistir. Fita crepe não resolve tudo. Pare de se contentar com remendos, quando você pode construir algo belo e novo. Existe um lugar especial para as construções que não duraram: as lembranças. Se você foi feliz, mesmo que por um pequeno espaço de tempo, no seu sonho, na sua história, no seu relacionamento, na sua aventura, essa lembrança estará lá. E ninguém poderá dizer que não valeu a pena, a não ser você. E parta para o novo com as experiências  adquiridas, com a alma limpa e sem medo de dar errado. Esse conceito de errado é muito questionável!

Porém se, no fim dessa avaliação, ainda houver chance de conserto, não desista! Mesmo sendo mais difícil ou mais trabalhoso. Existem obras de arte belíssimas construídas com materiais que já foram chamados de lixo. Casarões do século XIX que são verdadeiros monumentos. Pode dar certo sim! E somente você pode decidir a hora de desistir ou insistir. A verdade é que seja qual for a sua escolha, ela vai exigir o máximo de comprometimento, só assim somos capazes de sair das relações rasas e sonhos pequenos para alcançarmos as maçãs do topo da árvore e as montanhas mais altas.

Uma carta que jamais deveria ter sido escrita

Imagem retirada do Google


Eu aceito os caminhos de Deus, chego até a entender, mas nada conforta nessa hora. Não há palavras ou abraços fortes o suficientes que cessem a minha dor. Não há esperança ou projeto grande o suficiente para me fazer levantar e seguir. Tenho ouvido muitas palavras de amigos muito queridos, todos têm se importado comigo, menos a única pessoa que importava. E nada consegue preencher o vazio do peito, da alma, da casa.

Perceber as pistas que você deixou por todos os lados é se ferir com as próprias alegrias. Guardar uma roupa que estava secando e lembrar como aquela bermuda está larga em você. Levantar para escovar os dentes e ver o barbeador que você esqueceu de levar junto da escova. Ou o shampoo que ficou na prateleira do box. Abrir o armário e ver as roupas que você ainda não levou ao lado das minhas, como velhas companheiras de lembrança. Os tênis continuam todos na sapateira, seus documentos na pasta, seus livros na estante. É a xícara do botafogo no armário, ou a tulipa junto aos copos. O par de taças e de chinelos na porta.

Me pergunto como vai ser quando tudo sair de vez. O vazio vai causar a mesma sensação. O não ver fará a mesma dor, porque sempre vai haver a lembrança do que esteve ali. Das risadas pela casa, da bagunça domingo de manhã com as crianças na cama, o passeio à feira, o almoço que você sempre ajudava a preparar, o filme à noite. São espaços que já estão vazios e nem por isso deixam de doer.

Levantar e seguir em frente. O conselho que todos dão. E o meu maior desejo. Não por não te amar, por me amar também, apesar de agora eu não estar conseguindo seguir para lugar algum. Não vou fazer nenhuma promessa, hoje eu só quero sentar aos pés do Senhor Jesus e chorar. Deixar que Ele cure as minhas feridas, deixar que a Sua paz invadir a minha vida e preencher esse espaço que você deixou quando bateu a porta. Hoje eu quero apenas sentir Deus trabalhando na minha vida. Não estou conseguindo adorar hoje e grande parte da minha oração é apenas um murmurinho que espero ser entendido por Deus.

Eu creio que tudo vai passar, pelo tempo, por Deus e porque a vida te empurra para frente mesmo que você não queira. Hoje eu ainda não to podendo caminhar. Preciso tirar da mochila aquilo que pesa demais, aquilo que não vai mais ter sentido na minha vida, aquilo que não é meu. O peso de uma vida que não existe mais, de uma vida que foi descartada tão facilmente. 13 anos que foram deixados de lado de um jeito tão pequeno. Nós não merecíamos esse fim. O fim devia ter sido planejado e acertado por nós dois, assim como quando casamos. Lembro dos joelhos dobrados no chão pedindo direção a Deus. As mãos juntas, entrelaçadas, apertadas, seguras, pedindo pelo caminho certo. Caminho que tenho que seguir só.

O que é evolução?

Imagem retirada do Google.

I am ahead, I am advanced
I am the first mammal to make plans, yeah

Eu estou a frente, eu sou avançado
Eu sou o primeiro mamífero a fazer planos, yeah
Pearl Jam - Do The Evolution
A Opinião de hoje não é exatamente sobre um fato, mas sobre um conjunto de coisas que chamamos todos os dias de EVOLUÇÃO. Procurando no famigerado Google, evolução é o ato de evoluir e evoluir é passar por processo gradual de evolução, o que não ajuda em nada. A grosso modo, evoluir é transformar de forma contínua e harmoniosa. No entanto, muita gente confunde isso com aprimoramento, porém não são a mesma coisa. Aprimorar é uma forma de evoluir que visa benfeitorias, melhorar, apurar, mas nem toda evolução tem esse propósito.

O trecho acima é de uma música gravada em 1998, Do The Evolution, da banda grunge, Pearl Jam. Nela são questionadas situações cotidianas enfrentadas pela dita evolução do homem. Fomos os primeiros a usar calças e planejar, mas não fizemos isso direito. E o pior é pensar que, quase 20 anos depois, continuamos parados no mesmo ponto dessa letra. O que estamos fazendo com nossos índios? O que fazemos com as florestas, a água, os mares? Chamamos isso de evolução, o planeta chama de destruição. Não estamos deixando nada para os que virão. Estamos transformando tudo em cédula e dizendo quanto vale, sem dar valor a nada.

Esta terra é minha, esta terra é livre
Eu faço o que eu quiser, mas irresponsavelmente
 Nos deixamos levar pela luxúria envolvente do capitalismo selvagem, que nos ensina a escolher profissões pelos salários, bairros e carros pelos status, que nos diz que vencer na vida é algo completamente diferente do que achávamos que era aos 7 anos. Em Ouro de Tolo, do nosso eterno maluco beleza, Raul Seixas, descreve situações ainda mais próximas da realidade dos brasileiros. Mas pasmem, ela foi escrita em 1973 e ainda consegue ser atual. O que, deveria, incomodar profundamente a nossa sociedade.

Ah! Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa 
 O que nós estamos fazendo com o nosso tempo? Como o nosso mundo? Conosco? Esperando tudo virar pó para chorar as mágoas? O que é vencer na vida? Pense um pouco, respira fundo, se desgarra das respostas prontas que você aprendeu por osmose. Pensa no teu íntimo, no que te faz feliz. O que é vencer na vida? E o que você está disposto a abrir mão para conseguir? Seu planeta? Sua família? Sua crença? Seus princípios? 

Estamos abrindo mão de muita coisa como sociedade para dar lugar à EVOLUÇÃO citada pelo Pearl Jam e estamos nos contentando com muito pouco como disse Raul. Ainda dá tempo, nem todas as coisas estão perdidas. Podemos não salvar tudo, mas se pararmos agora, ainda teremos muito. Vamos desacelerar essa busca incansável pelo poder, pelo dinheiro e vamos sorris mais. Pensar mais na felicidades uns dos outros. Trocar. Se conectar com as pessoas para além de uma tela. Se solidarizar pelo drama daquele que não se conhece.

No caminho da evolução, nos ensinaram a construir um muro em volta dos nossos corações, a fim de nos proteger. Colocaram telas sobre nossos olhos para não vermos tão completamente. Taparam nossos ouvidos. Nos ensinaram que temos que correr contra o tempo. Nada disso nos protege e eu ainda ousaria afirmar: pode ser a causa de muita dor.

Repense seu modo de vida. Revise seus sonhos. Reveja seus planos. Inclua neles o futuro da terra, a preservação do verde, o respeito pelo outro, o amor ao que não se pode tocar. Não seja apenas um dígito na conta. Não se limite à um amontoado de objetos. Coloque o coração para fora. Sinta. Sinta a dor e a alegria que pode ser viver. Não se engane mais quando disserem que isso é evolução.