Então, o que você quer?


Então, o que você quer? Tenho ouvido isso constantemente e vou te dizer que o que eu tenho buscado ainda não tem nome, não tem forma, é apenas um desejo dentro de mim. Não sei bem como explicar, mas prometo que vou tentar da melhor forma que posso, se no fim não der, não se sinta mal, é que o que eu quero é tão raro que não dá para acreditar que existe.

Tudo começa com a vontade de ouvir. Querer ouvir até as reclamações. Repartir o dia, as risadas, o cotidiano. Descobrir o que se tem em comum e o quanto as diferenças podem ser engraçadas. Uma boa conversa antes de dormir e uma mensagem de bom dia que me faça sorrir. Gastar tempo em um bom papo e não ver a hora correr.

Depois tem o pensamento inesperado. Você ser pego pensando em quem nem faz parte da sua vida. Aquela lembrança que você nem sabe ainda porque teve. A vontade de esperar o dia acabar para estar lá de novo.

Um encontro furtivo, talvez dois ou três. Aquele frio na barriga enquanto passo o batom, a expectativa crescendo como balão dentro da gente. Quem sabe a noite se estenda até de manhã ou que a falta dela desconcentre o dia inteiro, aumentando a vontade e a saudade.

O simples. Sem promessas, sem futuro, só o que se tem de bom agora. Os momentos perfeitos em sua duração. O momento certo de desligar a ligação, o beijo que dura o tempo exato para ser bom demais até o dia seguinte. Aquela sensação de se estar com sorte na vida.


Então, o que você quer? Ser surpreendida pela vida. Ir por aí vivendo, caminhando, algumas vezes, correndo, mas sempre seguindo em frente e quem sabe uma hora os meus olhos não refletem a luz da lua e a magia acontece. Não estou esperando mais nada, nem amor, nem para sempre, nem aquilo que já tem nome. Quero viver aquilo que ninguém conhece, aquilo que ainda não tem nome. Tem que ser bom como sorvete derretendo dentro da boca da gente, se for para ser menos, não precisa vir.

Por amor a mim



Depois que você se foi eu só me perguntava quando eu rir de novo. Quando o peso do passado não ia passar de uma tarde chuvosa. Porque eu queria me sentir leve de novo. Isso era o mais importante, poder flutuar nos meus sonhos de novo. Saltar entre as nuvens, porque o chão nunca foi forte o suficiente para me prender. Eu queria voar. Sorrir. Ter os olhos verdes de esperança de que tudo pode ser diferente, de que para tudo há uma solução, que nada é tão grande que não possa ser moldado. Queria me sentir de novo, sentir a brisa da manhã tocar a pele e sorrir para um novo dia. Só queria poder apertar o botão para acelerar o tempo, como aquele filme com o seu ator preferido. Eu não queria mais entender ou explicar nada, apenas sorrir.

O sol saiu junto com a primavera, as flores coloriram o meu caminho  distraíam a minha mente. Eu ouvia o barulho a minha volta e até reconhecia os amigos. Balançava a cabeça em sinal de concordância quando os via gargalhando entre uma aula e outra. Eu só queria rir como eles. Enquanto não conseguia, apenas seguia empurrada pela vida, como os jogos antigos de vídeo-game. E como tudo no corpo humano é prática, comecei a andar sozinha e gostei da minha companhia. O silêncio foi cedendo a vez para a música e elas já não contavam a nossa história. Decidi terminar de ler aquele livro que estava na estante a meses. Mudei algumas coisas de lugar. Mudei alguns lugares. Ainda não era eu, mas já não era mais você em mim.

Comecei uma nova história, retomei os esboços antigos. Criei novos alvos e hábitos. Experimentei café sem açúcar e gostei. Comprei sapatos novos, escolhi uma nova tatuagem e reciclei velhas canções. Liguei para alguns amigos, conversamos e lembrei porque os amo. Retomei a ideia de conhecer a Índia, sem desistir da Itália. Desliguei o celular e pus os  pés na grama. Vi o sol se por, a lua ficar cheia. O tempo estava passando. E eu esquecendo dele.

Discuti política, defendi meus pontos, troquei algumas ideias. Pensei na faculdade, senti orgulho do que faço. Fiz minhas primeiras entrevistas, editei um vídeo e já tenho textos atrasados. Conversei por horas sobre assuntos importantes e outros não tanto assim. Anotei novos filmes para ver. Alguns novos títulos de livro foram parar naquela lista que não pára de crescer. Finalmente vou passear naquele parque que tanto lhe falei. Tô seguindo a vida, sempre em frente como diz a canção, foi quando me dei conta que já estou sorrindo.

Sobre reconstruir...


Desde pequena que sou apaixonada por arquitetura, admirar construções e materiais. Quem me conhece um pouco mais sabe da minha "queda" por escadas, principalmente aquelas pomposas e que desafiam a física, fogem do tradicional e se sustentam por fios. Nos meus dias felizes na UFRJ eu costumava observar a escada da biblioteca do Centro de Tecnologia ~ me foge o bloco agora ~ ela é um espiral no centro do salão, feita de cimento queimado, exuberante e bruta ao mesmo tempo. Alguns prédios no centro da cidade também me chamam atenção, construções históricas como o centro de Paraty e o entrelaçado de ferro nos portos. Com isso desenvolvi uma habilidade a mais para reformas. Cresci numa casa que vivia em obra e com uma mãe que sempre pensava em como mudar alguma coisa. Então reformar sempre esteve no meu cotidiano. Dizem que mulher por si só já gosta de uma reforma; reformamos sapatos, bolsas, roupas, casas e pessoas.

No entanto, comecei a perceber que algumas coisas não são passíveis de reforma. Porque é necessário que haja uma estrutura firme para que o antigo seja transformado em novo, não adianta cobrir uma parede de porcelanato se a coluna estiver prejudicada. Ou colocar uma senhora porta de entrada, se não houver viga. Seja pela deterioração do tempo, seja pela estrutura anterior, seja pelo novo projeto, algumas coisas não podem ser receber ajustes. É necessário que seja totalmente destruído para que haja algo novo. A verdade é que é muito mais difícil reformar do que construir do zero. Numa reforma você nunca sabe o que vai encontrar pela frente e não sabe o grau dos problemas que vão surgir. Sim, sempre há mais do que se pode ver.

Então, como decidir quando reformar? Bem, se a reforma for na sua casa, chame um profissional qualificado! Mas quando a reforma é na vida, a coisa complica muito mais. Temos muita dificuldade de entender que, as vezes, é necessário deixar morrer. Aprendemos lá na escola, a muito tempo atrás, que tudo é um ciclo, como começo, meio e fim. O problema é que não estamos preparados para esse fim. Vamos reformando e retocando as coisas sem nos preocuparmos muito com a estrutura, até que tudo vem a baixo. Relações, sentimentos, projetos, nós mesmos, tudo, precisa estar bem edificado para segurar as porradas da vida. Caso contrário, qualquer vento mais forte te derruba.

Precisamos ser avaliadores de nós mesmos, conferindo os alicerces, a fundação, a fiação, o telhado, observar infiltrações e as reincidências de problemas. Buscar as causas e ser franco na hora de desistir. Fita crepe não resolve tudo. Pare de se contentar com remendos, quando você pode construir algo belo e novo. Existe um lugar especial para as construções que não duraram: as lembranças. Se você foi feliz, mesmo que por um pequeno espaço de tempo, no seu sonho, na sua história, no seu relacionamento, na sua aventura, essa lembrança estará lá. E ninguém poderá dizer que não valeu a pena, a não ser você. E parta para o novo com as experiências  adquiridas, com a alma limpa e sem medo de dar errado. Esse conceito de errado é muito questionável!

Porém se, no fim dessa avaliação, ainda houver chance de conserto, não desista! Mesmo sendo mais difícil ou mais trabalhoso. Existem obras de arte belíssimas construídas com materiais que já foram chamados de lixo. Casarões do século XIX que são verdadeiros monumentos. Pode dar certo sim! E somente você pode decidir a hora de desistir ou insistir. A verdade é que seja qual for a sua escolha, ela vai exigir o máximo de comprometimento, só assim somos capazes de sair das relações rasas e sonhos pequenos para alcançarmos as maçãs do topo da árvore e as montanhas mais altas.