A minha, a sua

Algumas dores não vão embora. Por mais que os sonhos de renovem, por mais que a vida siga, por mais que tenhamos aprendido a lição, algumas dores nunca vão embora. Não sei se há um lugar sombrio para elas no coração ou se simplesmente uma parte nossa apodrece e morre no momento do corte, mas o fato é que elas permanecem. Não todo dia, nem mesmo todo mês. Você vai vivendo, acreditando que passou, toma um café, viaja, encontra um amigo, até que um dia, um filme, uma série, um sonho, escondido na letra da canção está a sua dor. De cara lavada te olhando nos olhos, você descobre que aquele soco de outrora permanece na boca do estômago. E dói tudo outra vez. A gente até quer chorar, se descabelar, fazer cena. Quem iria entender? Cresça menina. A vida é assim mesmo. É? Não tenho tanta certeza. Tenho mesmo é a impressão de que todos sentem e todos calam. Ninguém assume que a porra da dor não passa nem por um decreto, nem o tempo, nem qualquer mandinga faz a coisa toda sumir de dentro de nós. Algumas dores ficam, se camuflam no dia a dia e passam despercebidas a maior parte do tempo, mas estão lá. Aparecem no perfume, na cor do céu, no banco vazio, na vida que já não existe, nas perguntas, tantas perguntas, que ficaram sem resposta, sem lógica, questões que não fazem a menor diferença agora. Apenas estão lá, naquela história mal contada, no capítulo que parece não ter fim, em mim. E a gente chora quando ninguém está olhando, na tentativa de um dia, não chorar mais.

Então, o que você quer?


Então, o que você quer? Tenho ouvido isso constantemente e vou te dizer que o que eu tenho buscado ainda não tem nome, não tem forma, é apenas um desejo dentro de mim. Não sei bem como explicar, mas prometo que vou tentar da melhor forma que posso, se no fim não der, não se sinta mal, é que o que eu quero é tão raro que não dá para acreditar que existe.

Tudo começa com a vontade de ouvir. Querer ouvir até as reclamações. Repartir o dia, as risadas, o cotidiano. Descobrir o que se tem em comum e o quanto as diferenças podem ser engraçadas. Uma boa conversa antes de dormir e uma mensagem de bom dia que me faça sorrir. Gastar tempo em um bom papo e não ver a hora correr.

Depois tem o pensamento inesperado. Você ser pego pensando em quem nem faz parte da sua vida. Aquela lembrança que você nem sabe ainda porque teve. A vontade de esperar o dia acabar para estar lá de novo.

Um encontro furtivo, talvez dois ou três. Aquele frio na barriga enquanto passo o batom, a expectativa crescendo como balão dentro da gente. Quem sabe a noite se estenda até de manhã ou que a falta dela desconcentre o dia inteiro, aumentando a vontade e a saudade.

O simples. Sem promessas, sem futuro, só o que se tem de bom agora. Os momentos perfeitos em sua duração. O momento certo de desligar a ligação, o beijo que dura o tempo exato para ser bom demais até o dia seguinte. Aquela sensação de se estar com sorte na vida.


Então, o que você quer? Ser surpreendida pela vida. Ir por aí vivendo, caminhando, algumas vezes, correndo, mas sempre seguindo em frente e quem sabe uma hora os meus olhos não refletem a luz da lua e a magia acontece. Não estou esperando mais nada, nem amor, nem para sempre, nem aquilo que já tem nome. Quero viver aquilo que ninguém conhece, aquilo que ainda não tem nome. Tem que ser bom como sorvete derretendo dentro da boca da gente, se for para ser menos, não precisa vir.

Por amor a mim



Depois que você se foi eu só me perguntava quando eu rir de novo. Quando o peso do passado não ia passar de uma tarde chuvosa. Porque eu queria me sentir leve de novo. Isso era o mais importante, poder flutuar nos meus sonhos de novo. Saltar entre as nuvens, porque o chão nunca foi forte o suficiente para me prender. Eu queria voar. Sorrir. Ter os olhos verdes de esperança de que tudo pode ser diferente, de que para tudo há uma solução, que nada é tão grande que não possa ser moldado. Queria me sentir de novo, sentir a brisa da manhã tocar a pele e sorrir para um novo dia. Só queria poder apertar o botão para acelerar o tempo, como aquele filme com o seu ator preferido. Eu não queria mais entender ou explicar nada, apenas sorrir.

O sol saiu junto com a primavera, as flores coloriram o meu caminho  distraíam a minha mente. Eu ouvia o barulho a minha volta e até reconhecia os amigos. Balançava a cabeça em sinal de concordância quando os via gargalhando entre uma aula e outra. Eu só queria rir como eles. Enquanto não conseguia, apenas seguia empurrada pela vida, como os jogos antigos de vídeo-game. E como tudo no corpo humano é prática, comecei a andar sozinha e gostei da minha companhia. O silêncio foi cedendo a vez para a música e elas já não contavam a nossa história. Decidi terminar de ler aquele livro que estava na estante a meses. Mudei algumas coisas de lugar. Mudei alguns lugares. Ainda não era eu, mas já não era mais você em mim.

Comecei uma nova história, retomei os esboços antigos. Criei novos alvos e hábitos. Experimentei café sem açúcar e gostei. Comprei sapatos novos, escolhi uma nova tatuagem e reciclei velhas canções. Liguei para alguns amigos, conversamos e lembrei porque os amo. Retomei a ideia de conhecer a Índia, sem desistir da Itália. Desliguei o celular e pus os  pés na grama. Vi o sol se por, a lua ficar cheia. O tempo estava passando. E eu esquecendo dele.

Discuti política, defendi meus pontos, troquei algumas ideias. Pensei na faculdade, senti orgulho do que faço. Fiz minhas primeiras entrevistas, editei um vídeo e já tenho textos atrasados. Conversei por horas sobre assuntos importantes e outros não tanto assim. Anotei novos filmes para ver. Alguns novos títulos de livro foram parar naquela lista que não pára de crescer. Finalmente vou passear naquele parque que tanto lhe falei. Tô seguindo a vida, sempre em frente como diz a canção, foi quando me dei conta que já estou sorrindo.