Amadurecimento

Sem meias verdades

20:00,12 Comments

Dezembro chegou trazendo todas as suas luzes, não importa qual a hora do dia, porque tudo agora brilha como o sol. E eu ainda ando pelas ruas fora do tempo. Posterguei aquele momento em que tenho que descer a caixa da árvore, desembrulhar as bolas já não tão brilhantes, os enfeites já gastos e o emaranhado de pisca-piscas. Tenho mantido a agenda fechada, para não encarar a lista de desejos do ano passado feita pela metade, quiçá na metade. O vinho para a ceia eu já comprei, pelo menos umas três vezes diferentes, as garrafas vazias se acumulam ao lado da lixeira na pia, com sorte não estarei sóbria a meia noite. Deixei de lado esse ano o amigo secreto da empresa, não sabia se iria conseguir sorrir para o presente sem graça ou personalidade que insistem em dar todos os anos, como se não dividissem a maior parte de seus dias comigo. Eu sinto muito, não vou continuar com a encenação esse dezembro, nem mesmo sou religiosa. E você pode até chamar isso de solidão, amargura ou azedume. Porém é muito mais maduro que isso. Apenas passei a olhar com olhos mais tentos as vistas que me eram disponíveis. Percebi que muitos escondiam o perdão dentro dos embrulhos de presente, na intenção de não precisar se redimir. Lágrimas de crocodilo transformadas em diamantes, para esposas e amantes. Abraços e congratulações tão falsas quanto nota de três reais. Tudo esquecido em benefício da família. Daquela tia que subestimou o ingresso na universidade ou do primo que apalpou onde não devia. Do marido da tia que tinha outra família. Da prima gostosa que se vangloria na frente de todos, mas não pode levar o namorado porque ele é casado. Do outro neto da vovó que não tem coragem de sair do armário. Do pai que rejeita abertamente um dos filhos. Ah família! Facilmente confundida com um cortiço de Jorge Amado. Tudo bem, eu posso até não saber o que é o natal, contudo não venha me convencer que você conhece muito além do que eu lhe contei até aqui. E não vale usar argumentos como rabanada ou peru, eles são a cocaína do natal, o que te mantém vivo até que tudo acabe. E eu tenho andado em paz comigo mesma, em grande parte por mudar minha postura diante daquilo que não posso mudar, o que se diferencia e muito de apenas aceitar! Meus sorrisos tem valido muito mais e minhas palavras de carinho são honestas. Não tenho envolvido minhas verdades em papel machê e colocado em baixo da árvore, nem burlado a própria lista com academias que nunca frequentarei e adesivos de nicotina. Despi-me da tradição, da traição, da dor e da culpa. Ando procurando relações mais profundas do que apenas encontros de lábios. É, talvez, eu não acenda mesmo as luzes esse ano, no escuro não há sombras. E se for como dizem, que a noite é mais escura logo antes do amanhecer, então, quem sabe, não amanheça em mim nesse dezembro?

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12 comentários:

  1. Não havia forma melhor de terminar: "quem sabe, não amanheça em mim nesse dezembro?"
    Como te disse outro dia, ninguém tem que ser que nem ninguém, cada um tem sua visão da vida, do mundo, dos momentos!
    Diferente de você, eu sou religiosa Lu! Sou católica e a base da minha fé está em Jesus, que pra mim é o verdadeiro amor, então eu comemoro o natal comemorando o renascimento do amor ( mas isso é papo pra outra hora, gravei até um video falando um pouquinho), no entanto eu admiro muito sua postura.
    Não há porque se vestir de pisca-pisca para deixar satisfeitos os que comemoram ( e muitas vezes não sabem nem o pq disso!!!), nada forçado funciona bem, a sinceridade deve existir em tudo nas nossas vidas, continua assim na beleza dos seus sorrisos e carinhos honestos e certamente você vai se amanhecer!
    Um abraço!

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    1. Obrigada de montão! E sim, ninguém tem que ser o que o outro quer! Essa questão religiosa é complexa mesmo para mim, apesar de crer muito em Deus e em Jesus como meu salvador, não sigo uma religião, não mais, como você disse isso é papo para outro dia! E sim quero ver o vídeo heim!!
      Obrigada de novo.
      Bjoks

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  2. Identifico-me muito com o seu texto. Religião para mim, hoje, é um conceito totalmente diferente de fé em Deus.A primeira eu não acompanho mais e a segunda, eu nunca deixei de seguir. Sim, as comidas sazonais são a cocaína do natal e o amigo secreto encobre os desamores e mágoas do ano todo.

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    1. Obrigada Anelice, então desejo a você um natal, um novo ano e uma vida sem meias verdades! Que possamos ter apenas os sorrisos sinceros!
      Bjoks

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  3. Muito lindo o texto. Você escreve muito bem.
    Adorei o blog e já estou seguindo.
    http://www.sonhosliricos.com.br/

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    1. Obrigada Tainá!
      Volte sempre e se sinta em casa. Claro que vou te visitar também!
      Bjoks

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  4. "Lágrimas de crocodilo transformadas em diamantes, para esposas e amantes." Um resumo da sociedade ne? (Aplaudindo de pe). Super parabens pelo texto. Beeeijos

    http://www.verdadeescrita.com/eu-resolvi-chorar/

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    1. Um resumo triste, infelizmente! Obrigada Rê!
      Te vejo em breve em Verdade Escrita.
      Bjoks

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  5. Adorei seu texto, faço destaque a este trecho: " E não vale usar argumentos como rabanada ou peru, eles são a cocaína do natal"
    super concordo contigo :)
    muraldagabs.blogspot.com.br

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    1. Obrigada Gabi!
      Que esse ano o natal possa ser mais verdadeiro para você!
      Claro que vou te visitar.
      Bjoks

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  6. Lu do céu, se eu disser que tu arrasou! Você acredita?
    Adorei sua forma de ver o natal por outro lado, e concordo super contigo. Lágrimas de crocodilo, falsos sorrisos, presentes mal dados e comidas com segundas intenções... Que dera que o natal fosse só sorrisos, amor e muita paz!! <3
    Aproveitando o clima, um Feliz Natal e que esse seja sincero e verdadeiro!
    Beijooooo
    http://ventaniadememorias.blogspot.com.br/

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    1. Muito Obrigada!
      Esse também é o meu desejo a você e a todos que de alguma forma estão na minha vida!
      Claro que vou te visitar!
      Bjoks

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Obrigada por ler a crônica, espero que tenha gostado. Deixe o link do seu blog para que eu possa retribuir a visita e conhecer seu trabalho. Apareça mais vezes, vai ser um prazer ter você como leitor(a).